Sem humildade, tudo é vão e estéril.
"Próprio da estrela é a luz que a cerca, e próprio àqueles que adoram e temem a Deus são a pobreza e a humildade. Não há nada tão distintivo, e não há tão claro sinal dos discípulos de Cristo, quanto o espírito humilde e a aparência modesta. Disso falam os quatro Evangelhos. Aquele que não vive assim humildemente, perde sua porção dAquele que Se humilhou voluntariamente, até a morte, e morte de Cruz (...).
É dito 'Todos vós os que tendes sede, vinde ás águas' (Is. LV, 1). E vós, que tendes sede de Deus, venham em pureza de mente e de coração. Mas aquele que deseja voar alto assim deve também olhar para sua condição terrena, de mendigo. Ninguém é maior do que o humilde. Assim como quando não há luz quando tudo fica obscurecido e escuro, também quando não há humildade todas as nossas obras tornam-se tolas, vãs e estéreis." (Hesíquio de Jerusalém, "Textos acerca da Sobriedade e da Oração, p. 295, em Writings from the Philokalia on Prayer of the Heart)
Numa primeira leitura, pode-se acreditar que, especialmente no primeiro parágrafo, o autor refere-se à uma humildade externa, como a luz parece ser algo que cerca a estrela e a envolve. Isso seria errado, pois sabemos que luz não somente rodeia a estrela, mas emana dela naturalmente, como uma consequência de seu próprio ser: uma estrela que não produz luz não pode ser estrela. Ora, a pobreza e a humildade estão para os discípulos de Cristo como a luz para as estrelas: são sinais que, percebidos externamente, denunciam a essência daquele que os produz.
Em outras palavras: uma estrela sem luz não é estrela, e um cristão aburguesado e soberbo não é cristão.
A verdadeira humildade está no reconhecimento da verdade a nosso respeito, e é por isso que os santos são unânimes ao dizer que não há virtude ou vida espiritual onde não há humildade. Jesus Cristo é "o caminho, a Verdade, e a vida" (Jo XIV, 6), como Ele mesmo o disse, e sempre que nego a verdade, nego-O a Ele e, especialmente no caso da humildade, nego sua relação comigo, pois nego a verdade daquilo que sou. Mas qual é essa verdade? O que sou? Responde-te o próprio Jesus: "Dizes: sou rico, enchi-me de bens, de nada tenho falta e não sabes que és um infeliz, um miserável, pobre, cego e nu!" (Ap. III, 17).
Pois bem: pensem num cego, miserável e nu, que anda por aí como se fosse vidente, rico e vestido - vai terminar bem? Ele fará boas obras? Ou, antes, só produzirá risos, tolices, vãs e estéreis?

